Entrevista – Marcos Farrajota (Chili Com Carne)

Pegando carona no espírito iberoamericano desta edição do Ugra Zine Fest, uma das atrações do evento será a exposição Futuro Primitivo.
Idealizada e concebida pela associação portuguesa Chili Com Carne, a exposição reflete com precisão o espírito irrequieto do grupo e o diálogo que seus artistas promovem entre os quadrinhos (ou BDs) e outras linguagens.
Fomos bater um papo com o Marcos Farrajota, uma das mentes por trás da CCC, em busca de mais informações sobre o universo caótico que eles estão criando.

Futuro Primitivo

Arte de Miguel Carneiro

Ugra – O que é e como funciona a Chili Com Carne? Quantas pessoas estão hoje envolvidas na organização?
Marcos Farrajota – A Chili Com Carne é uma associação legalizada sem fins lucrativos que de dois em dois anos reúne-se numa Assembleia Geral, na qual as pessoas decidem o que querem fazer nos próximos dois anos. A Direcção é elegida nessa Assembleia e além de executar o que se pretende claro que também reage aos desafios novos que se colocam – coisas imprevísiveis como eventos, publicações que aparecem, etc. De resto trabalham entre 5 a 10 pessoas com menor ou maior actividade conforme os acontecimentos e interesses individuais.

U – Que tipo de quadrinhos interessa à Chili Com Carne? Você acredita que haja um ponto comum entre os trabalhos lançados pela organização?
MF – Banda desenhada contemporânea, BD de autor, arte que seja viva e para ser vivida, que surja das inspirações e reações do momento. Acho que aí poderás encontrar pontos de contacto entre todo o material. Estilisticamente não, pelo contrário privilegiamos a maior diferença entre os autores… Aliás para quê? Criar uma escola? Modas, Paradigmas? Nem pensar, somos orgânicos e não máquinas de reprodução mecânica. Outra coisa, a BD para nós não é fanatismo, daí que tenhamos interesse também em literatura, ensaio, música, etc.

U – Qual é a situação dos quadrinhos independentes portugueses hoje? Há bons autores, eventos, publicações ou editoras que possa nos indicar?
MF – Depois da explosão 1996-2002, a cena morreu a nível de mercado. O que não impede de haver resistentes e experiências. Até o ano passado havia a Feira Laica – que era um evento de edição independente, com grande participação do sector gráfico. Depois de 8 anos de actividade acabou mas tudo indica que irão existir alternativas este ano. O Festival de BD de Beja apesar de ser demasiado ecléctico é super-simpático, o ano passado passaram um mau bocado com falta de orçamento, vamos ver se acontece este ano – em Junho!
Autores portugueses há muitos e bons: Janus, Ana Cortesão, André Lemos, Jucifer, Filipe Abranches. Nos últimos tempos as maiores surpresas têem sido o José Smith Vargas e o Bruno Borges, que apesar de já fazerem muita coisas há mais de 10 anos, na área da colagem, ilustração e pintura, só nos últimos dois/três anos é que se dedicaram mais à BD – e com excelentes resultados! Da nova geração há com muito talento e vontade de fazer – e melhor ainda com capacidade de fazer – são eles: Afonso Ferreira, André Pereira, Rudolfo e Zé Burnay, verdadeiros “Chavalos do aPOPcalipse” nesta nossa sociedade de Anorexia, Smart Shops, Holiganismo e Cancro.

Futuro Primitivo

Arte de Margarida Borges

U – Você tem uma certa relação com os quadrinhos brasileiros, tendo publicado alguns de nossos autores na revista Seitan Seitan Scum e participado com histórias suas na revista Prego. Você lembra qual foi seu primeiro contato com uma HQ brasileira? Dos novos artistas, quais lhe chamam mais atenção e porque?
MF – Pessoalmente conheci BD brasileira nos finais de 80 e princípios de 90 porque chegavam cá as revistas Chiclete Com Banana, Piratas do Tiête e a Animal (para mim esta revista mudou a minha vida!). Depois disso, durante 15 anos foi mesmo obscuro saber o que se passava no Brasil, tirando uma coisa ou outra que por mero acaso chegava às minhas mãos.
Foi em 2008 que aconteceu o maior contacto com autores brasileiros porque organizamos um evento para o pessoal de Brasília, do Pégaso Alado / Bongoré Bongoró. Este encontro catalizou ainda mais contactos: a revista Samba, a revista Prego, Pedro Franz, Flávio Grão, Diego Gerlach, que parecem-me óptimos autores que fogem à BD humorística tão típica do Brasil – que já não há “saco”!
A experiência dos três volumes Promessas  de amor a desconhecidos quanto espero o fim do mundo de Franz é inesperado. E o trabalho do Diego Gerlach apesar de entender nada dá cabo de mim! Claro que ninguém bate o Fábio Zimbres, hahahaha, só ele bate consigo próprio mesmo quando faz “tirinha” – a Vida Boa é incrível a nível de narração, mesmo que tenha de seguir um formato pré-estabelecido. E claro, o livro + disco Música para Antropomorfos é excelente. Tive a oportunidade de fazer um argumento para o Fábio – que saiu na antologia Seitan Seitan Scum (não é revista, é um título de um número 22 do zine Mesinha de Cabeceira). Foi uma honra e um concretizar de sonho “teenager” trabalhar com ele, afinal de contas, o Zimbres com a Animal alterou toda a minha forma de pensamento quando tinha 16 anos. Com 30 e tal anos faço uma BD com ele!!! A vida é mesmo boa!

U – Fale-nos um pouco sobre a exposição Futuro Primitivo. Qual é o conceito da exposição, como surgiu a ideia, que material a compõe, que países já percorreu…
MF – Já esteve em Portugal, Itália, Finlândia, Suécia, EUA e Brasil. Foi agora também para Barcelona e S. Paulo e deverá morrer por aí… Em Barcelona estão originais do livro, no Brasil seguiram impressões e serigrafias – graças ao contrabandista Alex Vieira, hehehehe.
Todo o Futuro Primitivo é uma falha monumental, embora isso seja normal quando se avança com uma ideia experimental. Queria misturar várias tiras de BD de todos os artistas da Chili Com Carne (e convidados) para criar uma nova BD no seu total misturado. Uma meta-BD, um “remix” como acontece com a música. A exposição também era para ser misturada para cada evento que a recebesse – as tiras deveriam ser colocadas nas paredes de forma diferente para criar sempre novas leituras. Infelizmente os autores, ou as pessoas, não lêem nunca as instruções nem quando compram máquinas novas, né? Também não leram os meus e-mails e enviaram materiais muito diferentes ao pedido – olha, não disse que não queria ser “escola mecânica” mesmo? hahahaha Resultado, foi / é mais complicado trabalhar assim, e creio que o livro ficou abaixo do potencial desta técnica “remix” e a exposição não é diferente de outras exposições tradicionais de BD – até houve uma, em Beja, que fizemos instalações parvas com lixo tecnológico, foi um sucesso porque recriava algo de apocaliptico, que é o tema do livro!
Creio que funciona melhor com as impressões porque são do mesmo formato e permite o organizador misturar melhor, com mais coerência expositiva do que os originais que são sempre precisos estar protegidos por molduras ou são de formatos muito diferentes. Por isso, força aí, Douglas, mistura isso à vontade!
Ah! e claro, como havia muita gente na Chili que fazia música fizemos também uma banda sonora para a exposição em parceria com a You Are Not Stealing Records, que podem descarregar grátis.

Futuro Primitivo

Capa do livro que acompanha a exposição