Entrevista – Edgard Guimarães

Não vamos nem tentar disfarçar: contar com uma palestra do Edgard Guimarães no Ugra Zine Fest é a realização de um sonho. Ao lado do Henrique Magalhães, que também estará entre nós, Edgard é uma das figuras brasileiras com um dos maiores portfolios de serviços prestados ao fanzinato. Desde seu primeiro fanzine (o lendário Psiu, de 1982) até o longevo QI (que já passa das 120 edições), são mais de 30 anos editando, publicando, pesquisando, desenhando, escrevendo e apoiando o quadrinho independente nacional. Toda essa trajetória será esmiuçada na palestra “Retrospectiva do editor Edgard Guimarães”, a ser proferida pelo próprio no dia 6 de abril, às 15h30, no Ugra Zine Fest.
Batemos um papo rápido com o homem para dar um gostinho do que está por vir.
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Fanzine

Capa do livro Fanzine, escrito por Edgard Guimarães e publicado pela Marca de Fantasia

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Ugra Press – Apesar de colaborar com publicações de outros editores desde 1976, sua primeira investida como editor se deu 1982, com o lançamento do Psiu. Ou seja: há mais de 30 anos você está envolvido com fanzines e quadrinhos independentes. Se considerarmos que o primeiro fanzine brasileiro data de 1965, podemos dizer que você acompanhou a maior parte da História destas publicações no Brasil. Diante disso, como você enxerga o panorama atual? É melhor, pior ou apenas diferente?
Edgard Guimarães – Em um número recente do “QI”, escrevi algo a respeito. Atualmente, na área dos quadrinhos, o Fanzine propriamente dito, aquele que traz principalmente informação, como publicação impressa está quase acabando. Sobraram uns poucos, como o “QI”. O restante virou blog, site ou publicação virtual. Já as publicações independentes de quadrinhos, embora existam em grande quantidade na forma virtual, também têm grande vitalidade na forma impressa. Com outras temáticas, além dos quadrinhos, o fanzine informativo, de reflexão, o experimental, ainda existe em boa quantidade.

UP – A sua dedicação e a qualidade da sua produção são fontes inesgotáveis de inspiração para novos e velhos editores independentes. Depois de todos estes anos de fanzinagem, quais são suas motivações e expectativas?
EG – A primeira motivação foi publicar minhas HQs, já que não existia mercado profissional. Mas a própria atividade de editar, publicar outros autores, manter intercâmbio, passou a predominar e minha produção como quadrinhista ficou em segundo plano. Quanto à expectativa, aquela que existia de poder atingir um público maior, hoje não existe. Tenho uma certa consciência de que não há maior interesse pelo tipo de trabalho que faço e eu não tenho interesse em deixar de fazer o trabalho que faço. Outra questão que hoje é relevante é que a produção impressa tem custo e, portanto, o produto precisa ter preço. Mas a internet tem criado uma geração de gente que quer tudo de graça. Não são essas pessoas que vão se interessar pelos fanzines impressos.
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QI

Número de estréia do QI, na época ainda chamado Informativo de Quadrinhos Independentes

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UP – Em algum momento você pensou em parar? Por quê?
EG – Em alguns momentos tive que repensar a maneira de editar. Em 1992, achei que produzir álbuns de quadrinhos não estava tendo o resultado esperado. Minha solução foi criar todo um esquema de produção, divulgação e distribuição de fanzines de outros editores. Durou 9 anos, atingiu vários objetivos e deixou de atingir outros, o resultado é que não pude continuar com o esquema. Concentrei-me no “QI” até um ponto em que não tive mais condições de publicá-lo da mesma forma que fazia. Tive que mudar o esquema, adotando o sistema de assinatura que pudesse cobrir os custos. Hoje, o “QI” depende de existir um certo número de pessoas interessadas. Se deixar de ter, acaba. O que farei nesse caso, cabe ainda pensar a respeito.

UP – Uma curiosidade que sempre vem à tona quando seu trabalho é citado é o fato de você ser Engenheiro Elétrico e lecionar no ITA, uma das mais conceituadas instituições de ensino superior do Brasil. Você nunca cogitou construir uma carreira ligada aos quadrinhos, seja como autor ou editor? A engenharia elétrica é apenas uma profissão ou é também uma paixão?
EG – Sempre gostei de Histórias em Quadrinhos, e produzia meus trabalhos desde criança, mas nunca deixei de estudar outras matérias. Como nunca houve mercado regular para o quadrinhista no Brasil, segui uma carreira mais estável e cursei Faculdade de Engenharia. Acabei preferindo exercer a profissão no Magistério, primeiro em curso técnico e depois como professor universitário. Durante esses meus mais de 30 anos de profissão, algumas vezes tentei publicar profissionalmente, mas a irregularidade do mercado, entre outras coisas, acabou me levando para a publicação independente, na qual estou até hoje. Parte de minha produção como quadrinhista e estudioso dos quadrinhos tem sido publicada pela editora Marca de Fantasia, que, não sendo uma editora profissional, dá a liberdade necessária ao autor.

UP – Dentre todos os títulos que você já publicou, qual foi o mais marcante e por quê?
EG – As antologias que publiquei no final da década de 1980 e início de 1990, pelo tamanho, número de páginas e diversidade de autores, têm uma certa imponência. Mas creio que o “QI” deve ser considerado meu trabalho mais marcante, pela regularidade, pela longevidade (mais de 20 anos), pela utilidade e pelo reconhecimento que teve ao ganhar várias vezes o Troféu Angelo Agostin de ‘Melhor Fanzine’ e ter garantido a mim, também várias vezes, o Prêmio Jayme Cortez, ambos patrocinados pela AQC – Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas do Estado de São Paulo.
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Memória do Fanzine Brasileiro

Capa do livro “Memória do Fanzine Brasileiro”, publicado pelo Edgard Guimarães em seu selo Ego.

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